Há um movimento nada silencioso acontecendo na América Latina: Argentina e México decidiram rever suas leis trabalhistas, cada um à sua maneira. Uma aposta na “flexibilização” e na derrubada de direitos históricos como estratégia para dinamizar a economia. O outro propõe reduzir a jornada como forma de modernizar relações e melhorar a qualidade de vida, ainda mais em um cenário de trabalho onde cada vez mais burnouts são vistos e vividos, taxas de sedentarismo aumentam e a rotina se tornou ainda mais desafiadora no pós-pandemia.
Não vamos entrar no mérito político dessas decisões, mas vamos refletir por uma percepção universal: quando países discutem trabalho, estão discutindo a vida dos trabalhadores e as formas existentes de contratação e remuneração pelo seu trabalho.
O Brasil não está de fora dessa conversa. Por aqui, o debate sobre a jornada 6×1, que voltou ao centro das discussões, segue quente. O tema toca diretamente em algo que sempre foi tratado como natural: trabalhar quase a semana inteira e “compensar” com um único dia de pausa.
Durante muito tempo, isso foi visto como normal. Hoje, é amplamente questionado e esse questionamento não é “nós contra eles”, ele revela uma mudança de mentalidade. Durante décadas, aceitar uma vaga era uma decisão quase matemática: salário maior significava avanço, e os benefícios completavam a equação, o resto era o resto.
Se pensarmos nos últimos 100 anos da história do trabalho, no Brasil e no mundo, havia uma normalização do excesso (em algumas profissões, até certo orgulho) das jornadas estendidas, disponibilidade constante, férias acumuladas, finais de semana ocupados por “urgências inevitáveis”. O discurso era o mesmo: é assim mesmo. Mas, talvez não seja.
Depois de uma pandemia que embaralhou a rotina, as prioridades e de vermos ao vivo uma escalada nos casos de ansiedade e burnout, qualidade de vida deixou de ser conceito abstrato. Passou a ser critério concreto de escolha na hora de aceitar ou não uma vaga de trabalho. E, se você ainda não pensou nisso, tá na hora de pensar.
Quando o México discute reduzir a jornada semanal, está, no fundo, debatendo tempo. Quando a Argentina fala em flexibilização contratual, está falando de risco, estabilidade, previsibilidade ou a falta delas, e quando o Brasil revisita o modelo 6×1, está questionando o quanto a rotina de trabalho pode ocupar da vida, sem comprometer o resto dela.
Tempo e previsibilidade podem impactar diretamente na sua saúde mental. Não se trata apenas de ter dois dias de descanso ou um, o assunto aqui é avaliar se o trabalho deveria “engolir tudo”. Segundo o Report da OECD/EU* (pesquisa realizada na Europa) cada vez mais pessoas (77% delas), deseja que o trabalho ocupe o lugar destinado a ele nas nossas vidas, e que o espaço para folgas, para convivência, para a família e para o “existir” fora das nossas funções exista. Esse respiro, muitas vezes nos faz até profissionais melhores.
Ao mesmo tempo, Uma pesquisa nos EUA* mostrou que 83% dos trabalhadores querem flexibilidade na jornada de trabalho, e 74% querem poder trabalhar quando e onde preferirem, esse dado mostra que, também existem pessoas que desejam ter o controle de quanto e onde trabalham e contratos mais flexíveis permitem isso, já que nessas situações o acordo entre empregado e empregador tem valor soberano, inclusive legal.
É curioso como, durante muito tempo, direitos trabalhistas foram tratados como entraves econômicos: férias, descanso semanal, limite de jornada, tudo virou sinônimo de custo. E, de certa forma, até é, mas um custo calculável, seja pelo trabalhador seja pelo empregador para que o ato de trabalhar seja compensador além do dinheiro. Logo, o debate regional (Latam) deixa algo claro: o modelo de trabalho está sendo reavaliado. E, quando modelos são reavaliados, expectativas também o são.
O profissional que observa essas discussões começa a fazer perguntas diferentes antes de aceitar uma vaga. (E, acredite, você deve fazê-las). Já não basta saber quanto se recebe, é preciso entender como se trabalha. Qual é a jornada real? Não apenas a que está no contrato, mas a que acontece na prática.
Existe respeito ao descanso ou apenas discurso institucional? A empresa opera em 6×1, 5×2, banco de horas flexível? Existe previsibilidade ou improviso constante? Nem toda jornada intensa é sinal de alta performance. Às vezes, é sinal de desorganização estrutural e nós, como trabalhadores, precisamos estar atentos a isso. Não no sentindo de julgamento, mas no sentido de “se isso nos cabe ou não”. Topamos ou não?
No livro “Matter What” a autora Lisa Nichols, fala muito sobre aquilo que permanece, mesmo quando o contexto muda. E talvez essa seja a reflexão que o mercado de trabalho esteja nos impondo agora: o que, na sua vida, permanece inegociável?
E, no meio disso tudo, existe uma decisão que é individual: aceitar uma vaga é aceitar um modelo de vida, ritmo e cultura que pode preservar ou desgastar.
O Brasil discute a jornada 6×1. Países vizinhos discutem redução de carga horária ou flexibilização contratual. Enquanto isso, as empresas observam e os profissionais comparam. E a pergunta que fica não é jurídica, é pessoal e só pode ser respondida por você: qual é o modelo de trabalho que você está disposto a viver?
Se as regras estão sendo debatidas em toda a América Latina, talvez seja hora de você rever as suas próprias, não há nada de errado em refletir.
E, depois desse pausa para reavaliar o que faz sentido pra você, conte com a gente para ser o filtro do que é inegociável, afinal é isso que uma plataforma de trabalho deve oferecer além do básico: critérios que façam com que a vaga certa encontre o profissional certo e que você consiga sempre colocar em prática seu próximo movimento profissional, sem ferir o que move sua vida.
Não existe certo ou errado, existe o que você, como profissional, está disposto a viver.